Hoje tenho o imenso prazer de receber André Esteves Pinto. Eu conheço O André há muito tempo, e foi uma surpresa muitoi agradavél em saber que, como eu, ele gosta de escrever poesias.
Andre, bem vindo e muito obrigada por participar desta entrevista.
André, fale um pouco sobre você.

Nasci em em São Paulo (Brasil), iniciei o curso de Direito na Universidade de São Paulo em 2008, porém abandonei, e agora curso Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Blog: http://poetadichter.blogspot.com.br/

Quando você começou a escrever ?

Comecei a escrever com quatorze anos, em 2003.

O que motivou você a começar a escrever?

O início da escrita para mim foi uma espécie de escapismo para o que estava acontecendo em minha vida, e acabei extravasando as sensações e sentimentos pelos quais estava passando em forma de poesia e alguns textos filosóficos que iniciei com base em alguns autores que já tinha contato como Nietzsche e George Orwell. Então fui buscar a arte e filosofia (e conseqüentemente a escrita), para “sumir” com alguns acontecimentos que estavam ocorrendo em minha vida, porém claro que com o tempo aquilo foi se tornando um projeto mais ambicioso e mais recompensador que apenas expressar sensações e sentimentos do momento, de modo que passou a se tornar um certo projeto existencial, de querer tornar cada frase um evento estético, por vezes e-mails ou recados se tornavam chance para desfilar palavras, de modo que esse início escapista se tornou numa vontade de viver para a arte e a literatura.

Qual é o seu livro favorito e qual é o seu autor favorito? Por que?
Meu livro preferido é “Irmãos Karamazov” de Fiodor Dostoievski, e meu autor preferido também é Fiodor Dostoievski. O livro, além de levar a várias questões filosóficas, tendo seu ápice com o conto de Ivan chamado “O Grande Inquisidor” que é uma arte de maestria por si só, também tem seus personagens tão bem delineados que eles parecem estar ali, é possível sentir a presença dos personagens, e a caracterização de Ivan me fez sentir uma identificação muito grande. O livro explora relações familiares, teses filosóficas, o espetáculo que é na verdade o crime e seu julgamento (mostrando que não podemos condenar programas de televisão atuais que exploram a violência, o que no Brasil se chama de imprensa marrom, porque esse espetáculo do crime ocorre desde que nos unimos em sociedade) no caso de Dmitri ao final do livro. Quanto ao autor, Dostoievski é meu preferido pelo fato de narrar uma história com grande poder de atração, mesmo um personagem aparentemente sem maiores atrativos, na descrição de Dostoievski ele se torna um grande personagem, pois se analisarmos o Raskolnikov de “Crime e castigo”, o personagem, “friamente” não tem muito a oferecer, exceto uma teoria de “Ordinário X Extra-ordinário” que quer provar, e mesmo seu crime, não o legitima um grande personagem, mas a descrição e a narrativa que acompanha o desenrolar de Raskolnikov o torna um personagem, como dito anteriormente, que parece estar ao nosso lado, de tanta presença que parece fluir do livro.

 Aonde você encontra inspiração para os seus poemas ou estórias?

Eu nos últimos anos tenho escrito mais poesia, embora no início até alguns anos atrás escrevesse mais contos (até o momento não escrevi nenhum romance, embora tenha umas três idéias que poderiam dar fôlego a um romance ainda não iniciei, e não sei se um dia iniciarei), de modo que falarei para as histórias antigas que escrevi. Para essas histórias (contos) que fiz, acabo me inspirando em cenários comuns do meu dia-a-dia. Não costumo me inspirar em cenários distantes, embora idealizado algumas vezes, como um conto que escrevi sobre um prédio que mantinha as pessoas nele mas que nenhuma porta estava trancada, e na verdade toda poderiam sair, mas os administradores e funcionários do prédio criavam histórias horríveis sobre como seria sair do prédio, além de fazerem experimentos com essas pessoas com sua alimentação, pois ele faziam uma engenharia química para achar os compostos e substâncias corretas para gerar na pessoa um certo tipo de sentimento ou emoção que eles queriam observar e faziam essas pessoas interagirem de modo controlado umas com as outras. Ou seja, não conheço nenhum prédio que seja num lugar descampado que mantenha uma instituição que controle pessoas, de modo que idealizei para atender uma certa mensagem, uma certa história a ser contada, mas no geral a inspiração são os lugares do cotidiano que vejo. Nada muito “inspirador”, mas que rende o que a história precisa e pede naquele momento.

As suas estórias ou poemas são baseadas em pessoas que você conhece ou em eventos que aconteceram com você ?

A maior parte das histórias que criava (e as poucas que criei recentemente) se baseiam em algo que experienciei, porém algumas não se centram nesta experiência. Confuso? Explico. Recentemente estava andando pelas ruas e vi uma mulher jovem olhando um pedaço de madeira largado com mais lixo ao redor. Ela ficou um bom tempo olhando a placa de madeira, era meu aniversário, e algo deu um estalido em minha cabeça de escrever uma história de um homem (talvez um alter-ego meu) que também fosse aniversário dele, e ele resolve conversar com essa mulher e a ajudar com a madeira, não importa o que ela quisesse fazer, ele a ajudaria, e os dois passariam um dia ótimo juntos e conversando, e quase no fim do dia, quando estão para se despedir ele lembra que era aniversário dele. Ou seja, foi uma experiência minha de ter visto a mulher olhar a madeira no lixo e ser meu aniversário realmente, mas a história não seria a minha experiência, porque no caso eu não falei com ela ou a ajudei com a placa e com o que ela queria ou não fazer com aquilo, apenas o gatilho da história foi uma experiência, mas a história mesma não é uma experiência. A maior parte do que escrevo se torna essa história sem experiência, quase cumprindo a máxima sartriana: “Mas é preciso escolher: viver ou narrar”, e já há um tempo que escolhi narrar (claro, talvez não haja essa dicotomia). Quanto a se basear em pessoas, claro isso é inescapável, mas não é deliberado, quando escrevo e faço um personagem, ele pode reunir características de várias pessoas que conheci, ou por vezes nenhuma, como um personagem de um conto que fiz sobre um amigo que quer rever um amigo de longa data que saiu de uma cidade pequena e começou a rodar o país. A história toda se passa com este amigo contando e percorrendo os caminhos atrás do amigo, mas ele não se parece com ninguém que já conheci, nem sequer eu mesmo. Então é claro que elementos de quem está ao nosso redor “contaminam” os personagens, mas não é algo deliberado do genêro: “Vou escrever este personagem pensando em como é João”, acabamos moldando o personagem ao que queremos para a história e para aquele momento, e nisto podem vir certas características de quem conhecemos. De modo que a resposta para a pergunta, se faço histórias baseado em pessoas que conheço ou acontecimentos que experienciei, tem de ser sim e não ao mesmo tempo, porque as experiências são o gatilho, mas não necessariamente a história seja uma experiência, e porque as pessoas dão características, mas não é alguém específico que gera um personagem completo.

Quando estou escrevendo preciso de silêncio. E você? Você gosta de ouvir música enquanta está trabalhando?

Eu também preciso de silêncio. Até consigo escrever com música, mas não é igual. Parece que precisa haver uma imersão completa no que se está escrevendo, senão algo fica incompleto no texto. O estilo que o texto está pedindo exige uma certa “música interna” que colocar algo para ouvir, mesmo que a melhor música do Universo, irá desmanchar aquela “aura” que é preciso criar para o texto, para o personagem, para a história que se quer transmitir, por isso o silêncio para mim é fundamental, essencial, para ouvir a música do texto.

Quantos livros você já escreveu ?

Três. Dois de poesia e um de contos. “Poesias” foi o primeiro, “Contos deslocados” o segundo, “Shakyonte” o terceiro.

O que você tem a dizer sobre o seu próximo projeto?

Estou escrevendo contos, voltando a escrever histórias curtos, e pretendo reuni-las, não sei ainda se divulgo em blog história por história, ou faço um livro digital. Claro, sem abandonar a poesia que segue todo dia comigo, escrevendo pelo menos alguns versos por dia. Mas certamente o próximo projeto será no sentido das histórias curtos (contos).

 

shakyonte

 

Sobre o que é o seu livro?

O livro Shakyonte é um livro de poesias que tenta trazer uma verdade escondida em imagens por vezes inusitadas, diferentes, para que desperte no leitor um senso de pertencimento aquele dizer poético.
O personagem principal deste livro, se assim posso dizer, é a própria imagem que a poesia suscita no leitor

Você gostaria de deixar uma mensagem para os leitores?

Não deixem que a velocidade dos dias retire os pedaços que sussurram arte e poesia dentro deste Universo insano e estranho, porque o que define o homem é “con-ver-ser”, a arte de conversar é fazer versos uns com os outros, e neste “con-ver-ser” só podemos ver para ser com alguém, só podemos expressar com o outro, o que a velocidade atual e a tecnologia está jogando cada um de nós para mundos reclusos e escutando apenas o que queremos ouvir, sem a chance de escutarmos universos que sussurram… Permitam-se escutar. Permitam-se ver. Há pessoas querendo falar o que lhes foi sempre negado… Agradeço a todos os leitores que até aqui chegaram, e à Marcia pela oportunidade. Finalizo com uma citação de Hölderlin que define o que é “ser humano”: “… o homem poeticamente habita…”. Habitem como se fossem os últimos poetas. Abraço a todos.

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