Pegasos

Meu nome é Pegasos, um nome pomposo para um cavalo sujo e magricela. Meu dono, ou meu patrão, se voce preferir, me maltrata.
Acha que voce entendeu errado? Não, voce não entendeu errado não. Infelizmente, como eu, meus amigos cavalos também são mal tratados.
Deixe eu contar a minha estória.
Eu moro em Petrópolis, uma linda cidade nas montanhas, mais ou menos a uma hora do Rio de Janeiro. Petrópolis é conhecida como a “Cidade Imperial”, porque foi a residencia de verão dos imperadores do Brasil.
Voce deve estar pensando que eu estou querendo me exibir, não é? Talvez sim. Eu me orgulho de morrar aqui e eu não sou estupido. Eu escuto o que as pessoas falam e aprendo.
Eu trabalho, e trabalho muito.Meu trabalho e carregar turistas pela cidade. Meu patrão diz que isto é trabalho, mas eu não penso assim. Eu sou escravo. Tenho que puxar a carruagem cheia de gente, não importa se estou cansado, ou doente, ou com fome. Não importa também a condição do tempo. Eu não tenho recompensas, não ganho comida ou água suficientes durante meu horário de trabalho ou mesmo depois.
Outro dia, eu vi um dos meus amigos desmaiar no meu da rua porque estava exausto. Eu fico imaginado quando isso vai acontecer comigo também. Meu amigo teve sorte, uma alma caridosa cuidou dele. Alguém tem que dizer ao meu dono que o tempo da escravidão acabou.
Turistas vem a Petrópolis, eles devem continuar vindo, é uma cidade maravilhaso com muita história. Turistas gostam de andar de carruagem pela cidade. Eu tenho que concordar que tem o seu charme e é romantico. E acima de tudo, é uma tradição. As carruagens são chamadas “Vitórias”, em homenagem a rainha Vitória da Inglaterra. E aqui estou eu me exibindo outra vez. Desculpem-me por isso.
Os turistas apreciam a volta de carruagem, mas eu estou cansado de tudo isso. Estou cansado de ver os mesmos lugares e de ouvir sempre as mesmas estórias e reclamações. Estou cansado de carregar as pessoas por aí. Eles não se importam com o que acontece conosco.
Não me diga que sou mau agradecido, porque eu não tenho nada para ser agradecido.
Às vezes acontece alguma coisa interessante. Outro dia, para aminha surpresa, uma mulher falou com o meu chefe. Eu pensei que ela era outra turista interressada em passear de carruagem, mais não era.
Ela nasceu em Petrópolis mas mudou-se para a Alemanha há muitos anos atrás. Ela confrontou meu chefe, dizendo a ele que era cruel o jeito que ele me tratava e também como os meus amigos cavalos eram tratados.
Ela mostrou uma foto a ele. Curioso, estiquei meu pescoço para olhar. Era uma foto de uma carruagem que não tinha cavalos. Eu não entendi nada, como o meu chefe também não entendeu. A senhora explicou que ela tinha visto me uma cidade na Alemanha, chamada Munster. A carruagem era movida por um motor, como se fosse um carro.
Eu fechei meus olhos e sonhei com isso. Quem sabe, talvez um dia a minha vida mude, meu dono compre uma daquelas carruagens movidas a motor e eu podesse terminar meus dias em um pasto verde.
Eu não me importo de trabalhar, mas eu mereço respeito e mereço ser bem tratado. Não apenas eu, mas todos os meus amigos cavalos e outros animais.

Marcia Weber Martins

Advertisements